quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Sonhos

Tenho a sensação de que o vento é aquilo que menos me agrada no mau tempo. Mas também sei que é o que melhor espalha a vida.

Não quero chorar.
Nem me apetece rir.
Quero deixar-me ir.

Em queda livre lenta. Como naquele sonho de há anos. Cadenciada. Com a leveza de uma pena. E o controle do prazer. Bem como prazer de controlar.

Todas as noites o mesmo sonho. Um lugar que me era familiar. Cores que conhecia. Tacto que reconhecia. Não me lembro de cheiros. Lembro-me do sofá de veludo verde escuro. Atrás, a janela grande que dava para a varanda. E o sol, a pôr-se por trás do prédios do outro lado da rua de alcatrão negro, ligeiramente molhado, como se tivesse chovido de tarde.

Porque é que eu caminhava para a janela?
Tinha algo que me chamava sem palavras. Sem sons. Sem gestos. Tinha curiosidade.

Ia. E via. Um anjo. Arquétipo.
Grande, com cabelos muito compridos e loiros. Revoltos. Talvez fosse mais um arcanjo, a julgar pelo seu porte...
Tinha umas asas gigantescas por trás das suas costas. Via-lhe bem o redondo. A forma e a sensação das penas. Como se fossem as asas de um pavão branco.
Não me lembro de nenhuma cara, como se fosse um vazio.
Ou seria o contra-luz que não a deixava ser vislumbrada. O anjo desaparecia e eu soerguia-me do chão sem querer.
A medo.
Com medo. Mas insuficiente para me fazer recuar.
Caminhava pelo ar, como se tivesse asas por pantufas. Levemente. Muito devagar. Direita. Caminhando mesmo, não voando. O chão desaparecia-me debaixo dos pés e passava a ser uma imagem distante, lá em baixo. Mas sem nunca sentir o tecto da sala de estar da minha avó roçar-me a cabeça.

Se houvesse um caminho não o usava. Caminhava com direcção e sem caminho. Por cima das imagens que ainda conheço.
Avante.
Virava sem virar, para a esquerda, onde a rua faz uma curva e bifurca com uma estrada de campo. Um caixote grande, verde, metálico, tinha uma imensa fogueira a arder. O anjo – ou será arcanjo? – estava lá. Tinha uma imensa espada de fogo. Um sabre. Como aquele que eu sonhava manejar quando observava o meu mestre com o seu...
Não tenho sensação de andar.
Perdi-a no caminho.
É muito mais o meu destino que vem até mim e não eu a caminhar para ele.
Tenho medo.
Temo o fogo.
Sinto o calor na face e oiço o crepitar e vejo tudo com o laranja único das chamas. Parece-me que vou entrar nele e arder. E o anjo irrompe das chamas com a velocidade de uma pena a cair. Mas ascendendo à minha frente.
Medo.
Outra vez.
Porque ele me arma a espada e parece que me vai estocar com a lâmina de fogo.
Desconfiada.
Sempre.
Sinto o que não posso mas quero evitar, sem luta.
Sinto a labareda da arma desembainhada. Toca-me. No braço direito. Não sinto calor nem dor. O crepitar esmorece. O fogo parece tão distante. Sinto-me longe daquela rua que conheço e onde não me lembro de ser feliz.
Está tudo turquesa.
Em meu redor não há nada. Calma. Muita. O nada é isso mesmo. Ou um turbilhão de alegrias. Ou uma explosão de tristeza. Tudo isso.

Para onde foi o anjo?

Acho que ele me sorriu. Sempre tinha cara. Tinha feições de gente. Como eu. Como todos. Anjos e humanos.

Já não caminho sobre a imagem da sala ou da rua ou do caixote do lixo em labaredas. Agora é que voo. Como se estivesse presa a uma asa delta invisível. E num repente volto a sentir o chão sob os meus pés e há que me aperceber depressa que estou em cima de um muro imenso de alto, e estreito. Caio. Ou salto. Ou nada e simplesmente estou em queda livre.
Mais medo.

Sensação de perda de controle, de rebolar na areia de uma duna demasiado empinada ou de saltar na bicicleta sem ver a altura do morro.

Tudo isto só durou menos de um instante. Uma medida de tempo especial dos sonhos.
É o tempo de ganhar a coragem que não sei de onde me vem para controlar os eventos.
Controle.
Segurar a queda, se é que eu estava a cair. Não a impeço. Não me agarro a nada. Só deixo de temer estatelar-me no chão que há-de estar lá em baixo, escondido da minha vista. Deixo de temer porque controlo.
Seguro a velocidade. Travo suavemente. Rebato a queda para uma velocidade angelical. A tal. A da pena que tomba. Com os deslizes laterais e tudo.
Ultrapasso-me e seguro-me. Agrada-me o sonho e a sensação, porque mando eu! Parece que me vejo a sonhar e a dominar o sonho como se na realidade estivesse a ver um filme; onde estava eu a dormir.
Nada é real. E eu sei.
Ainda hoje sei...

Aterro tão de mansinho como o fim da queda de uma pena.

Não há nada à minha volta. Está tudo tão escuro que prefiro acordar. E acordo. Perturbada? Acho que não, mas sempre cansada. Umas vezes parecia-me o chão de uma sala de sapateado, outras terra batida pelos animais e outra as placas de madeiras de uma sala antiga. O cheiro era o do Palácio de Queluz... Só aí, nessa imagem vivida, sentia cheiro quando sonhava. Quando sonho.

Com uma excepção.
Houve uma vez que fui às compras à Feira da Ladra. Num Sábado. Fim de tarde. Meia estação, que não fazia muito calor, mas também não estava frio.
Vi tanta coisa que não me interessava.
Mas uma banca captou-me os sentidos. Era bonita. Era cheia. Apetitosa. A voz da mulher não era esganiçada. E cheirava tão bem!
Vendia sabonetes naturais de todas as cores.
Quis muito um. Comprei um de tons rosa e com um cheiro que não existe, pura e simplesmente!
Deixei-o na minha mesa de cabeceira. Senti-lhe o cheiro toda a noite. Uma mescla de jasmim com canela, temperados de limão quente e leite a escaldar. Com uma pitada de açúcar, rosas velhas e sândalo.
Quando acordei não estava lá.
Perguntei à minha mãe onde o tinha posto.
Procurei-o mais do que uma vez. Tinha a certeza de que um momento até acordara e lhe tocara para o pôr dentro da gaveta, de forma a que o cheiro não fosse tão intenso.

Nem tinha sequer ido à Feira da Ladra nas últimas semanas...

Passei a fase de sonhar e de me lembrar de sonhar todas as noites. Depois de tantos sonhos recorrentes só houve um pesadelo que me foi ficando a ensombrar a memória.

Na mesma casa. Na cozinha, entre a janela e a varanda de trás. Não havia mas via no sonho, uma crucifixo de madeira negra que sangrava pelo furo feito na parede para o prego de onde pendia. Quando chegava àquela etapa do sonho fazia sempre por acordar. Não queria ver o que se passava ali. E chegava ali de tantos lugares, de tantos sonhos, de tantos sítios que nada tinham a ver com aquilo.
A minha avó veio a morrer ali, mais ou menos naquele sítio. E nunca mais tive o sonho.

Felizmente.

Deixei de ter pesadelos. Muito menos recorrentes. Acordo raramente de noite. Quando acordo fico acordada. Não sonho.
A última vez que tive um, fiquei na dúvida se era um pesadelo ou um sonho.
Mas acordei.
E tive de ir trabalhar mais cedo porque já não suportava ficar na cama.

Estava num navio de guerra. No seu interior. Sentia-o no mar. Mas não via o mar. Sentia as ondas baterem-lhe, mas não as ouvia.
Caminhava em silêncio, vestida de negro, com um pelotão que parecia comandar.
Claramente caminhávamos em território inimigo.

Não tinha visto cenas de guerra há pouco tempo. Nenhumas. Nem em filme, nem em noticiário, nem nos jornais.

O navio era moderno, mas rangia como se fosse um batelão.
Esporadicamente escutava tiros e explosões. Vozes também. No piso superior, mas não diziam nada em língua alguma. Eram só vozes. E nós falávamos inglês.
Subimos ao convés e estava tudo destruído. E nós íamos acabar de destruir o que faltasse. O que fiz no percurso de subir escadas estreitas de bordo foi colocar explosivos. Estava tudo marcado para só termos tempo de sair do vaso de guerra.
No convés estavam vários mastros quebrados, de madeira semi-ardida, que não condiziam com a modernidade do resto, e muitas escadas de corda e cordame pendiam entre nós e a murada por onde era a fuga. Alguns inimigos avistaram-nos de outro ponto do navio e vinham a correr para nos enfrentar num corpo a corpo que queríamos evitar.
Eu é que tinha o detonador.
Corremos para a murada e vimos que o barco estava num porto, junto a casas, atravancado entre outras embarcações, de recreio. O céu estava carregado com nuvens e luzes de explosões e alguém – civil – vinha lá embaixo a correr.
Alguém.
Nesse momento vi algo extraordinário no barco. Enquanto os outros ouviam esse alguém, vi um labrador retrevier amarelo, gordo, com aquele gesto típico deles de andar e abanar a cauda ao mesmo tempo. Com um passo rápido. Afastava-se de mim. E o barco ia explodir.
Parei o detonador. Se o parasse ele dava-nos mais 10 minutos de tempo e depois detonava. Sem que fosse possível evitar a segunda vez.
Agarrei o cão ao colo, contra os gritos dos meus camaradas. Chamavam-me pelo nome e gritavam ‘nãos’.
Subi escadas de corda com o cão num braço. Saltei com ele ao colo e havia quem disparasse tiros dos quais tenho a clara sensação de me proteger, ouvindo as balas zunir junto da minha pele.

O barco estava prestes a explodir.

Quando vou para saltar a murada junto dos meus camaradas e com o cão ao colo vejo um grupo grande de crianças correrem na direcção do barco.
Estou mais à frente que os outros. Vejo-as. Eles não as vêem. Volto-me e descrevo o que vejo: Crianças agasalhadas, a sairem de uma casa cheia com luz quente, como se estivesse a ser servido um ‘cocktail’ infantil, composto de bolo de chocolate, chocolate quente e torradas com doce... algo assim. Descrevo e um dos homens que está comigo aproxima-se da murada e vê o mesmo que eu.
Não sei como é que ele fez, mas o barco moveu-se. Quebrou-se uma amarra e nós íamos ficar longe do local para onde queríamos saltar. Não era a mim que eu me queria salvar. O que me preocupava era o cão que tinha no colo. Sem peso.

Corria agora para o outro lado do barco e a sensação de pesadelo invadia-me cada vez mais e mais. Olhei o tal homem que corria à minha frente. Era um pouco mais alto que eu. Tinha o corpo trabalhado, notava-se pela farda.
Tropecei sem cair.
Cansada.
Cansada de sonhar e não acordar. De não parar o tormento da dúvida.
Do descontrole.
Ele parou e olhou para trás viu-me. Vi-o. Tinha os olhos claros, a face não muito tisnada. O cabelo era solto e esbranquiçado. A face rude e elegante. Forte de aspecto e não de gordura. Parei.
Ele queria ajudar-me a levar o cão. E eu acho que deixei. E acho que foi quando lhe passei o cão que percebi que aquela pessoa era eu. Era eu em homem.
E foi a sensação mais estranha que tive.
Como se estivesse a ver-me sem ser eu. Mas sabendo-me.
Acordei.
Não consegui.
Talvez já quisesse saber mais daquela pessoa. Talvez quisesse continuar a sonhar.
Mas não consegui.

Porque fui arrebatada por quem eu era. Estando eu ali.
Eu homem?
Eu militar?
Eu?
A surpresa prolongou-se todo o dia. Como se me perseguisse. Como se se eu um dia encontrasse aquele homem – ou um igual àquele! – desmaiasse. Me encontrasse. Não encontrar para casar, para ser o homem da minha vida. Mas eu. O meu outro lado. A minha verdadeira outra face.
O meu yang. Ou a minha versão menos Yin.

Nunca tinha estado num sonho duplamente como eu. Já tinha sido mais do que uma personagem, entrando eu e também sendo alguns dos outros que estivessem comigo. Mas com uma personalidade distinta.
Com um espírito para cada um.
Um carácter diferente por pessoa.
Ali não.
Ali era eu. Eu e ele. Ambos Eu.
Sem que me tivesse dividido numa parte de coragem e noutra de medo, ou algo assim, não. Eu e mais eu. Mas macho.

A impressão foi a de haver um mundo paralelo.
Um lugar.
Sem tempo.
Aqui ao lado. No meu sonho
Onde eu era o que quisesse. E ele era eu também. Quer quisesse. Quer não.
Mas isso foi uma sensação racional. Porque a verdadeira sensação foi a do cheiro a gengibre em bolo quente, com cravinho da Índia e pimenta vermelha num prato de sândalo saído do forno. Era a isso que ele cheirava. Cheirava de uma forma fria.
E gostava de lhe ter tocado porque tenho a certeza que teria e pele morna apesar do calor da corrida. E sentiria a barba áspera a surgir-lhe. Loira. Se ouvisse melhor a voz dele não seria a (desejada) de Leonard Cohen. Nem sequer a de Joe Cocker. Seria um misto de rudeza polida com charme.
Um sonho.

Foi neste último vento que embarquei que me apercebi do valor de sonhar. Chego a adormecer com vontade de sonhar. De viajar. Porque me queria voltar a encontrar. Com ele/comigo.
Fica o desejo. Espero o vento.

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