
Vejo-me perante mais um momento duro.
Sou eu que os faço assim, recrio-os da forma que Nuno Rogeiro me ensinou quando comecei a ser jornalista. Dizia ele, então, algo que me parecia absolutamente lógico e que parafraseio de seguida: "se formos optimistas em relação a algo e tal correr mal, ficamos desolados; se formos pessimistas e as coisas correrem menos mal, é estupendo".
Este princípio ficou entrosado no meu ego e fez-me minha personalidade. Sou pessimista.
Agora, tento todos os dias contrariar-me porque principiei a perder a noção das coisas boas, não as desfrutando. Só memorizo o que é mau e a teoria da conspiração surge-me nas palavras mais inocentes que me dizem, sobretudo quando se trata de cenários que desejo, pois é neles que deposito maior ânsia de resultados positivos. Só que já não acredito naquilo que é positivo!
Nesta idade, querer corrigir um traço que aos 18 anos me foi incutido não é tarefa fácil, por isso narro aqui esta situação. É o meu lugar de catarse, porque quando escrevemos mensagens que deveriam ser ditas em voz clara - muitas vezes até com receptores próprios e claros - é como se ficassem mais do que ditas alto e bom som. Só que não chegam, na maior parte das vezes ao interlocutor...
Neste caso de hoje não tenho um interlocutor com nome, pois dirijo-me ao meu íntimo, provavelmente à minha consciência, e peço-lhe que me deixe gozar tranquilamente o agradável momento em que estou, sem que as dúvidas surjam. E duvidar de tudo e de todos é outra coisa - esta já não é culpa do Nuno Rogeiro! - que aprendi desde muito cedo, profissionalmente... O jornalismo político obriga a tantas verificações de histórias (ou deveria dizer de mentiras e de verdades?), que nos sentimos apanhados numa teia de realidades paralelas e próprias a interesses que raramente descortinados totalmente. Se viver assim não torna alguém desconfiado, é porque não foi talhado para o jornalismo político!
Hoje, finalmente longe do mundo da intriga, ficaram-me as cicatrizes do jornalismo, e como já não têm mais por onde arder na área profissional, enquanto não as conseguir sarar estarão activas na minha vida emocional. E não consigo acreditar no que me dizem! Duvido sempre! É um pesadelo! Martirizo-me com o que deveria deixar o meu ego a roçar-se no tecto lá de casa! No mínimo...
Se me dão a entender que querem estar comigo eu não devo pensar que há uma mente perversa à minha frente - e pela qual, ainda por cima, sinto carinho - a querer afastar-me sem saber como e a tecer um plano verdadeiramente maquiavélico para me retirar do seu caminho. Caminho onde entrei porque a criatura assim o desejou...
A minha missão de hoje é registar a ideia de que preciso de acreditar nos outros, senão como é que alguém pode acreditar em mim?
Se me dizem que é queijo é porque é queijo, e não porque me querem enganar com manteiga gelada!
Em véspera de fazer 36 anos, preciso que a minha consciência me dê descanso e eu não veja o que não exista e acredite no que oiça...
Amanhã a missão será outra: começar a escrever o que me disseram de positivo, para reler cada vez que começo a criar a storyline de um filme que ninguém quer realizar a não ser a minha consciência, que deve ser produtora de filmes de terror onde eu sou sempre a vítima e quem mais me quer bem pode muito bem ser o monstro da fita...
Depois de amanhã terei de começar a ler então as notas positivas que anotei... e lê-las todos os dias!
Meu Deus, não mete medo ser meu amigo?
E Deus e eu andamos de relações tão avessas... Mas isso é outro texto...
