quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Nos idos da faculdade...

Deparei-me com um antigo professor de leis meu em clínica. Não lhe fiz a consulta nem é meu paciente regular, mas assim que vi o nome na ficha achei que era quem era...
Para manter a sua privacidade não direi nenhum nome, nem que aula me dava. O importante a reter é que, durante um ano, lidei com ele, com menos uns 12 anos e saudável, hoje tem esclerose lateral amiotrófica que o impede de falar e lhe cria tantas dificuldades em comer e beber que está entubado...
Quando o conheci, leccionava a matéria que eu menos apreciava e sendo eu uma aluna que se destacava pela vida associativa intensa, ele, como a maioria dos outros professores, tomavam especial interesse pelas minhas participações, pois estavam sempre à espera de me 'agarrarem' num passo em falso. Era a escola daquela universidade...
Ele não me reconheceu. E eu, fora a memória visual, se não fosse o nome, não o reconheceria.
Se há uns anos atrás o considerava um catedrático que nos fazia a vida negra nas orais obrigatórias que tínhamos, que nas aulas nos forçava a uma atenção permanente e que gostava de gozar com o nosso desconhecimento; agora encontrei um homem rendido.
Se 'ontem' o aguerrido que ele era demonstrava a sua face de frustrado, hoje é a falta de coragem que o demonstra.
Quem não viveu corajosamente não tem coragem para morrer. Felizmente que também não tem coragem para perder, pois seria mais uma razão para ter frustração.
Nestas linhas podem pensar que eu tenho raiva ao senhor. Não tenho. Detestava-o. E ele detestava-me a mim, como comprovou na injusta oral que me fez e noutras ocasiões. E durante anos quis acreditar que aquilo tinha sido a pedagogia que ele utilizava (mal ou bem) para eu me espicaçar e interessar nas suas matérias.
Hoje tenho pena do senhor, tenho pena de o ter detestado, porque agora, que também já sou professora, entendo-o a esse nível.
A minha formação permite-me entendê-lo psicologicamente, e às suas atitudes nas aulas, e exercendo os seus direitos arrevesados de porteiro de Piaget sempre que possível.
Agora que perdeu capacidades, deixou de lutar. E gostava que ele se lembrasse de mim para eu lhe poder oferecer a retórica que, anos atrás, me pregou. Ganhou um desinteresse pela vida que o faz sonhar com a morte. Mas teme-a. Se fosse quem nos quis fazer crer não temeria.
Aprendi com ele, afinal - e só agora -, uma grande lição: quem vive sem coragem não a ganha na recta final. É preciso ter coragem para se deixar morrer. Lembro-me da imagem de soldados que vi partirem para missão e regressar feridos. Muitos tentavam voltar para o combate naquele momento, não era demência. Era coragem. Os seus companheiros estavam lá, eles queriam estar também. Morrer? Para eles a morte era indiferente, e isso não é loucura. É a tal coragem.
O professor não está a morrer. Está a apagar-se. E ao apagar-se está a deixar de ser quem, com orgulho, queria ser. É a sua entidade e o seu ego, que estão moribundos. Ele é um ser humano. Morrerá quando 'a máquina' parar. O seu ego parece já ter morrido. Só não morreu porque nunca existiu. Ele era uma ficção de si próprio. Hoje é alguém real, que está aterrorizado e destroçado com a desgraça que lhe estava fadada. Mas o que eu lhe podia dar de melhor agora, não posso realmente dar-lhe: era dizer-lhe o que ele nos transmitia aula após aula, ano após ano (pois a fama dele passava nos boatos universitários). Dizia-lhe, se pudesse, que ele devia seguir as suas palavras de que "vocês não são ninguém se não souberem responder a isto..." e colocava uma questão que lhe parecia básica, que alguém, invariavelmente, tentava responder. Mesmo que a resposta estivesse certa, a pergunta era feita de forma a que pudesse ser sempre uma resposta incompleta, e então ele acrescentava que "isso não está totalmente errado, mas vale mais ficar calado a um canto do que tentar mostrar-se 'menino bonito' perante os seus iguais quando não se sabe tudo".
Professor, ninguém sabe tudo. Se soubesse tudo, se soubesse onde está hoje, em que pé está o seu futuro, onde é que estaria? O que é que teria feito que não fez? Como é que nos teria tratado? Eu sei que sabe que não fez o seu melhor, fez o que podia, porque estava farto de tudo e de todos, em casa e no trabalho, porque se achava melhor do que aquilo que era e do que aqueles que o rodeavam. Hoje precisa deles para sobreviver e já não vai a tempo de viver. Mas o seu sonho era ser um grande professor, pois agora é uma lição viva de que temos de viver tudo o que queremos. Ou pelo menos tentar.
Lembra-se de nos dizer que um dia queria subir o Kilimanjaro e não o fazia porque a melhor altura nós lha roubávamos com os exames de segunda época?
Pois devia ter ido...

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Sonhos

Tenho a sensação de que o vento é aquilo que menos me agrada no mau tempo. Mas também sei que é o que melhor espalha a vida.

Não quero chorar.
Nem me apetece rir.
Quero deixar-me ir.

Em queda livre lenta. Como naquele sonho de há anos. Cadenciada. Com a leveza de uma pena. E o controle do prazer. Bem como prazer de controlar.

Todas as noites o mesmo sonho. Um lugar que me era familiar. Cores que conhecia. Tacto que reconhecia. Não me lembro de cheiros. Lembro-me do sofá de veludo verde escuro. Atrás, a janela grande que dava para a varanda. E o sol, a pôr-se por trás do prédios do outro lado da rua de alcatrão negro, ligeiramente molhado, como se tivesse chovido de tarde.

Porque é que eu caminhava para a janela?
Tinha algo que me chamava sem palavras. Sem sons. Sem gestos. Tinha curiosidade.

Ia. E via. Um anjo. Arquétipo.
Grande, com cabelos muito compridos e loiros. Revoltos. Talvez fosse mais um arcanjo, a julgar pelo seu porte...
Tinha umas asas gigantescas por trás das suas costas. Via-lhe bem o redondo. A forma e a sensação das penas. Como se fossem as asas de um pavão branco.
Não me lembro de nenhuma cara, como se fosse um vazio.
Ou seria o contra-luz que não a deixava ser vislumbrada. O anjo desaparecia e eu soerguia-me do chão sem querer.
A medo.
Com medo. Mas insuficiente para me fazer recuar.
Caminhava pelo ar, como se tivesse asas por pantufas. Levemente. Muito devagar. Direita. Caminhando mesmo, não voando. O chão desaparecia-me debaixo dos pés e passava a ser uma imagem distante, lá em baixo. Mas sem nunca sentir o tecto da sala de estar da minha avó roçar-me a cabeça.

Se houvesse um caminho não o usava. Caminhava com direcção e sem caminho. Por cima das imagens que ainda conheço.
Avante.
Virava sem virar, para a esquerda, onde a rua faz uma curva e bifurca com uma estrada de campo. Um caixote grande, verde, metálico, tinha uma imensa fogueira a arder. O anjo – ou será arcanjo? – estava lá. Tinha uma imensa espada de fogo. Um sabre. Como aquele que eu sonhava manejar quando observava o meu mestre com o seu...
Não tenho sensação de andar.
Perdi-a no caminho.
É muito mais o meu destino que vem até mim e não eu a caminhar para ele.
Tenho medo.
Temo o fogo.
Sinto o calor na face e oiço o crepitar e vejo tudo com o laranja único das chamas. Parece-me que vou entrar nele e arder. E o anjo irrompe das chamas com a velocidade de uma pena a cair. Mas ascendendo à minha frente.
Medo.
Outra vez.
Porque ele me arma a espada e parece que me vai estocar com a lâmina de fogo.
Desconfiada.
Sempre.
Sinto o que não posso mas quero evitar, sem luta.
Sinto a labareda da arma desembainhada. Toca-me. No braço direito. Não sinto calor nem dor. O crepitar esmorece. O fogo parece tão distante. Sinto-me longe daquela rua que conheço e onde não me lembro de ser feliz.
Está tudo turquesa.
Em meu redor não há nada. Calma. Muita. O nada é isso mesmo. Ou um turbilhão de alegrias. Ou uma explosão de tristeza. Tudo isso.

Para onde foi o anjo?

Acho que ele me sorriu. Sempre tinha cara. Tinha feições de gente. Como eu. Como todos. Anjos e humanos.

Já não caminho sobre a imagem da sala ou da rua ou do caixote do lixo em labaredas. Agora é que voo. Como se estivesse presa a uma asa delta invisível. E num repente volto a sentir o chão sob os meus pés e há que me aperceber depressa que estou em cima de um muro imenso de alto, e estreito. Caio. Ou salto. Ou nada e simplesmente estou em queda livre.
Mais medo.

Sensação de perda de controle, de rebolar na areia de uma duna demasiado empinada ou de saltar na bicicleta sem ver a altura do morro.

Tudo isto só durou menos de um instante. Uma medida de tempo especial dos sonhos.
É o tempo de ganhar a coragem que não sei de onde me vem para controlar os eventos.
Controle.
Segurar a queda, se é que eu estava a cair. Não a impeço. Não me agarro a nada. Só deixo de temer estatelar-me no chão que há-de estar lá em baixo, escondido da minha vista. Deixo de temer porque controlo.
Seguro a velocidade. Travo suavemente. Rebato a queda para uma velocidade angelical. A tal. A da pena que tomba. Com os deslizes laterais e tudo.
Ultrapasso-me e seguro-me. Agrada-me o sonho e a sensação, porque mando eu! Parece que me vejo a sonhar e a dominar o sonho como se na realidade estivesse a ver um filme; onde estava eu a dormir.
Nada é real. E eu sei.
Ainda hoje sei...

Aterro tão de mansinho como o fim da queda de uma pena.

Não há nada à minha volta. Está tudo tão escuro que prefiro acordar. E acordo. Perturbada? Acho que não, mas sempre cansada. Umas vezes parecia-me o chão de uma sala de sapateado, outras terra batida pelos animais e outra as placas de madeiras de uma sala antiga. O cheiro era o do Palácio de Queluz... Só aí, nessa imagem vivida, sentia cheiro quando sonhava. Quando sonho.

Com uma excepção.
Houve uma vez que fui às compras à Feira da Ladra. Num Sábado. Fim de tarde. Meia estação, que não fazia muito calor, mas também não estava frio.
Vi tanta coisa que não me interessava.
Mas uma banca captou-me os sentidos. Era bonita. Era cheia. Apetitosa. A voz da mulher não era esganiçada. E cheirava tão bem!
Vendia sabonetes naturais de todas as cores.
Quis muito um. Comprei um de tons rosa e com um cheiro que não existe, pura e simplesmente!
Deixei-o na minha mesa de cabeceira. Senti-lhe o cheiro toda a noite. Uma mescla de jasmim com canela, temperados de limão quente e leite a escaldar. Com uma pitada de açúcar, rosas velhas e sândalo.
Quando acordei não estava lá.
Perguntei à minha mãe onde o tinha posto.
Procurei-o mais do que uma vez. Tinha a certeza de que um momento até acordara e lhe tocara para o pôr dentro da gaveta, de forma a que o cheiro não fosse tão intenso.

Nem tinha sequer ido à Feira da Ladra nas últimas semanas...

Passei a fase de sonhar e de me lembrar de sonhar todas as noites. Depois de tantos sonhos recorrentes só houve um pesadelo que me foi ficando a ensombrar a memória.

Na mesma casa. Na cozinha, entre a janela e a varanda de trás. Não havia mas via no sonho, uma crucifixo de madeira negra que sangrava pelo furo feito na parede para o prego de onde pendia. Quando chegava àquela etapa do sonho fazia sempre por acordar. Não queria ver o que se passava ali. E chegava ali de tantos lugares, de tantos sonhos, de tantos sítios que nada tinham a ver com aquilo.
A minha avó veio a morrer ali, mais ou menos naquele sítio. E nunca mais tive o sonho.

Felizmente.

Deixei de ter pesadelos. Muito menos recorrentes. Acordo raramente de noite. Quando acordo fico acordada. Não sonho.
A última vez que tive um, fiquei na dúvida se era um pesadelo ou um sonho.
Mas acordei.
E tive de ir trabalhar mais cedo porque já não suportava ficar na cama.

Estava num navio de guerra. No seu interior. Sentia-o no mar. Mas não via o mar. Sentia as ondas baterem-lhe, mas não as ouvia.
Caminhava em silêncio, vestida de negro, com um pelotão que parecia comandar.
Claramente caminhávamos em território inimigo.

Não tinha visto cenas de guerra há pouco tempo. Nenhumas. Nem em filme, nem em noticiário, nem nos jornais.

O navio era moderno, mas rangia como se fosse um batelão.
Esporadicamente escutava tiros e explosões. Vozes também. No piso superior, mas não diziam nada em língua alguma. Eram só vozes. E nós falávamos inglês.
Subimos ao convés e estava tudo destruído. E nós íamos acabar de destruir o que faltasse. O que fiz no percurso de subir escadas estreitas de bordo foi colocar explosivos. Estava tudo marcado para só termos tempo de sair do vaso de guerra.
No convés estavam vários mastros quebrados, de madeira semi-ardida, que não condiziam com a modernidade do resto, e muitas escadas de corda e cordame pendiam entre nós e a murada por onde era a fuga. Alguns inimigos avistaram-nos de outro ponto do navio e vinham a correr para nos enfrentar num corpo a corpo que queríamos evitar.
Eu é que tinha o detonador.
Corremos para a murada e vimos que o barco estava num porto, junto a casas, atravancado entre outras embarcações, de recreio. O céu estava carregado com nuvens e luzes de explosões e alguém – civil – vinha lá embaixo a correr.
Alguém.
Nesse momento vi algo extraordinário no barco. Enquanto os outros ouviam esse alguém, vi um labrador retrevier amarelo, gordo, com aquele gesto típico deles de andar e abanar a cauda ao mesmo tempo. Com um passo rápido. Afastava-se de mim. E o barco ia explodir.
Parei o detonador. Se o parasse ele dava-nos mais 10 minutos de tempo e depois detonava. Sem que fosse possível evitar a segunda vez.
Agarrei o cão ao colo, contra os gritos dos meus camaradas. Chamavam-me pelo nome e gritavam ‘nãos’.
Subi escadas de corda com o cão num braço. Saltei com ele ao colo e havia quem disparasse tiros dos quais tenho a clara sensação de me proteger, ouvindo as balas zunir junto da minha pele.

O barco estava prestes a explodir.

Quando vou para saltar a murada junto dos meus camaradas e com o cão ao colo vejo um grupo grande de crianças correrem na direcção do barco.
Estou mais à frente que os outros. Vejo-as. Eles não as vêem. Volto-me e descrevo o que vejo: Crianças agasalhadas, a sairem de uma casa cheia com luz quente, como se estivesse a ser servido um ‘cocktail’ infantil, composto de bolo de chocolate, chocolate quente e torradas com doce... algo assim. Descrevo e um dos homens que está comigo aproxima-se da murada e vê o mesmo que eu.
Não sei como é que ele fez, mas o barco moveu-se. Quebrou-se uma amarra e nós íamos ficar longe do local para onde queríamos saltar. Não era a mim que eu me queria salvar. O que me preocupava era o cão que tinha no colo. Sem peso.

Corria agora para o outro lado do barco e a sensação de pesadelo invadia-me cada vez mais e mais. Olhei o tal homem que corria à minha frente. Era um pouco mais alto que eu. Tinha o corpo trabalhado, notava-se pela farda.
Tropecei sem cair.
Cansada.
Cansada de sonhar e não acordar. De não parar o tormento da dúvida.
Do descontrole.
Ele parou e olhou para trás viu-me. Vi-o. Tinha os olhos claros, a face não muito tisnada. O cabelo era solto e esbranquiçado. A face rude e elegante. Forte de aspecto e não de gordura. Parei.
Ele queria ajudar-me a levar o cão. E eu acho que deixei. E acho que foi quando lhe passei o cão que percebi que aquela pessoa era eu. Era eu em homem.
E foi a sensação mais estranha que tive.
Como se estivesse a ver-me sem ser eu. Mas sabendo-me.
Acordei.
Não consegui.
Talvez já quisesse saber mais daquela pessoa. Talvez quisesse continuar a sonhar.
Mas não consegui.

Porque fui arrebatada por quem eu era. Estando eu ali.
Eu homem?
Eu militar?
Eu?
A surpresa prolongou-se todo o dia. Como se me perseguisse. Como se se eu um dia encontrasse aquele homem – ou um igual àquele! – desmaiasse. Me encontrasse. Não encontrar para casar, para ser o homem da minha vida. Mas eu. O meu outro lado. A minha verdadeira outra face.
O meu yang. Ou a minha versão menos Yin.

Nunca tinha estado num sonho duplamente como eu. Já tinha sido mais do que uma personagem, entrando eu e também sendo alguns dos outros que estivessem comigo. Mas com uma personalidade distinta.
Com um espírito para cada um.
Um carácter diferente por pessoa.
Ali não.
Ali era eu. Eu e ele. Ambos Eu.
Sem que me tivesse dividido numa parte de coragem e noutra de medo, ou algo assim, não. Eu e mais eu. Mas macho.

A impressão foi a de haver um mundo paralelo.
Um lugar.
Sem tempo.
Aqui ao lado. No meu sonho
Onde eu era o que quisesse. E ele era eu também. Quer quisesse. Quer não.
Mas isso foi uma sensação racional. Porque a verdadeira sensação foi a do cheiro a gengibre em bolo quente, com cravinho da Índia e pimenta vermelha num prato de sândalo saído do forno. Era a isso que ele cheirava. Cheirava de uma forma fria.
E gostava de lhe ter tocado porque tenho a certeza que teria e pele morna apesar do calor da corrida. E sentiria a barba áspera a surgir-lhe. Loira. Se ouvisse melhor a voz dele não seria a (desejada) de Leonard Cohen. Nem sequer a de Joe Cocker. Seria um misto de rudeza polida com charme.
Um sonho.

Foi neste último vento que embarquei que me apercebi do valor de sonhar. Chego a adormecer com vontade de sonhar. De viajar. Porque me queria voltar a encontrar. Com ele/comigo.
Fica o desejo. Espero o vento.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Momentos!

Não quero mais nada. Nem passado nem futuro. Quero o momento do agora. Ter muitos agoras extraordinários e bebê-los como quem chega a um poço de águas cristalinas depois de oito dias à procura de um oásis no Sahara!
São os momentos que fazem o meu todo. Não é o meu passado, é a minha memória, aquilo quem sou. O meu passado é aquilo porque passei. A minha memória é o que molda a minha personalidade e que com ela está de acordo, aquilo que se encaixa em mim. O meu puzzle de vida.
Momento a momento vou caminhando por aquilo que ainda há pouco era o futuro que eu desconhecia e que agora é mais uma memória de quem eu sou.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Emparedada

Escolha feita, o difícil é seguir o trilho sem sair dele. Não porque não seja claro, mas porque a sombra do arvoredo muitas vezes seduz mais do que a caminhada ao sol... Ou o luar está encoberto e não vejo bem se estou a deixar as pegadas na via ou no baldio.
Desvio-me umas vezes porque assim o desejo, outras porque sou empurrada, mas são mais as vezes que é uma portagem que me barra o caminho.
Não estou perdida, com tanto desvio, sei para onde quero ir. Tenho alguma dificuldade em saber como lá chegar, mesmo vendo o percurso que preciso, que anseio, fazer. Contudo, os ressaltos derrotam-me a cada passo que não posso dar...

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Ninguém é uma ilha...

Já sei. Há tanto tempon que oiço dizer que ninguém é uma ilha. E sei-o na pele cada vez que choro. Sobretudo durante as lágrimas de final de dia e nas da almofada... Se houvesse ali uma península estaria muito melhor. Mas não há. Sou só eu, ou não choraria.
Mas as razões pelas quais se é uma ilha não me fazem chorar mais do que as de ser todo um continente. Pelo contrário. É quando tenho mais lagos nos olhos é quando tenho alguéns na minha ilha.
As lágrimas não sou eu que as faço, nem o meu ambiente, são as pessoas que entram e passam e deixam marcas carentes de sulfamidas e onde até sal deitam!
Cada vez que me envolvo choro mais. Encho o mar que rodeia a minha ilha mais um pouco e faço o contrário da Holanda e conquisto mais mar à terra, para me isolar cada vez mais. Sem sacrifício.
Um dia, quem sabe, arrependo-me.
Hoje não.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Entre a espada e a parede


A parede não tem conversa, mas cores doces, que abrem o apetite.
A espada parece a seta de Cupido, é só paixão.
Na espada magoo-me pela rapidez do seu golpe, que não permanece, deixando a ferida aberta permanentemente em vez de um lugar preenchido pela sua frieza, que sei ser natural e não ante mim.
Na parede vejo a frieza da edificação fundada no peso da história, dos antepassados e de tudo o que um nome representa. Vejo-a quando as cores doces esmorecem, a tinta se desgasta com os raios solares e os lugares ásperos são mais do os do papel de parede aveludade. Sou eu que a faço desbotar, com o calor que gero encostada a ela. E é essa frieza que me queima, ferindo-me com esse gelo que contradiz a paisagem linda que tem nos seus frescos. Olhos de mel...
Já a espada é sempre quente e intensa. Nunca falha, mas nunca pára. E corta o ambiente rapidamente, não tem um desgaste lento que me encante e por isso a minha paixão esmoreceu.
Já a parede apaixona-me e sinto-a misteriosa, mas quando lhe falo não me consigo apaixonar, pois é como falar com uma parede...
Não tenho de escolher a dor que quero. Posso ter as duas. É isso que é estar entre a espada e parede.