sexta-feira, 20 de dezembro de 2019
Nó Celta
Na terra dos celtas e dos duendes, das dezenas de palavras para dizer 'chuva' e 'verde', do tempo incerto e da distância curta até ao próximo lugar de parar. Quando o meu lugar de paragem és tu. Sem que eu nunca possa parar.
O verde estava lá, como está cá, nem mais nem menos intenso, apenas mais presente. As ovelhas de cara negra a salpicarem-no de branco enlameado pelas chuvas ocasionais que pouco presenciámos. Ocasionais vacas e nenhum cogumelo vermelho às pintas brancas que servisse de casa aos duendes.
Liras nas moedas e nas montras, a omnipresença do whisky e da cerveja, mas, sobretudo, dos sítios de estar ao calor da lareira e humano. Onde a comida é duvidosa e a estética vagueia entre o lugar tradicional desde o século XIX e as pessoas pirosas do século XXI.
As ruas, enaltecidas pelas luzes nocturnas, de dia, são cinzentas, adequadas ao frio que nos tolhe, com apontamentos de cor que dão vida numa personalidade semelhante à dos humanos autóctones. A cultura da intimidade alegre, herdada dos celtas.
O peso da diferença, manifesto na condução do lado errado da estrada, ultrapassa-se no saber do teu prazer pelo que desfrutas na viagem. Eu tenho prazer em apenas viajar. Por muito que falhe no destino, só me quero deslocar. Havia tanto que o fazia na minha deliciosa solidão, por ti interrompida, que temia romper-me. E rompi. Com a solidão de que sempre gostei. Por gostar mais da companhia que me deste.
O castelo em ruínas, no penhasco verde à beira-mar, assemelha-se ao que ficou da solidão de que desfrutava. Tal como o manto branco da neve na montanha se assemelha ao cobertor da tua companhia. Fria. Mas permanentemente carinhosa.
Desiludiu o empedrado da costa única, concebida pelos gigantes de outrora, porque lhe faltava o lado majestoso que guardava na imaginação. A mesma que não te construiu, apenas te descobriu real no que encontrou, há tanto tempo, como ideal imaginário. Sem perfeições. Já sei que ninguém as tem.
Só que o imperfeito do lugar dos gigantes caminharem foi perfeito para me enquadrar, certificando-me que é possível suportar companhia, encontrando espaço para mim. (Não é para entender, é para aceitar).
A paciência falta-me, gastei-a há tempos, em atitude de desperdício, pois foi usada para ninguém que a merecesse. Não tenho paciência para o medo. Não tenho paciência para parar. Não tenho paciência para me perder. Nem sequer para me encontrar. Tenho paciência para estar em movimento - que é como sei viver - com a companhia que ainda não te terminei de descobrir. Sou a cascata que desliza pelas pedras geladas na montanha, acalmando no vale que tu és para mim. Quando me ausentei de nós sofri mais do que recuperei, por isso sei que estou contigo.
Quer nas pedras rombas da praia ou no calor da lareira onde deixei o Atlântico gelado.
Os lugares importam-me, quero passar por tantos, só que sei que - como um nó celta - voltarei sempre para o mesmo lugar. Nem a minha viagem tem fim nem quem eu nela quero. Porém, o infinito só existe no nó celta. Aqui, em mim, só houve finitos até ser mãe. Até ver. O infinito é o círculo mágico dos cromeleques e culturas castrejas, como aquele visto ao longe, na paisagem verde, que é a Irlanda.
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