segunda-feira, 21 de abril de 2008

Suplemento de Single

Prefiro sentir-me uma ilha do que estar numa. A falta de terra por onde caminhar, de onde partir, por onde andar, é pior do que viajar sem companhia.

A companhia, seja na vida ou numa viagem (quando a minha vida é toda uma viagem), é sempre fazer de mim uma ilha povoada.

Ganho limitações e conversas.

Ganho cuidados e partilha de momentos.

Ganho preocupações e risos.

Ganho decisões conjuntas e desilusões a dois (ou três ou quatro...).

As compensações não se sobrepõem às contrariedades, pelo que prefiro ser, eu mesma, uma ilha.

As contrariedades impõe-se às compensações, tornando-me cada vez mais ilha.

Isolada dos outros, caminhando no meio deles, mas sem ter de me prender às tais contrariedades, ainda que houvesse momentos onde conversar saberia bem, rir seria agradável, compartilhar aumetaria o desfrutar, criticar em voz alta melhoraria a catarse... Mas isso são só momentos, e passo bem sem eles se for isso que preciso para não ter de pensar se já há alguém a fazer quilómetros a mais por minha causa, se está cansada ou com fome, se consegue escalar a mesma montanha, se prefere algo que eu não prefiro...

Não me quero cingir a mais do que o meu desejo de isolamento dentro do mundo que quero percorrer.

Os limites de não viajar em single são nefastos para a minha personalidade, entristecem-me muito mais do que ter companhia na minha viagem.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Pôr do Sol

Na China é fácil pensarmos em finais de tarde gloriosos, com um sol a desaparecer no horizonte que nos enaltece, mas o 'skyline' de Pequim não nos deixa ter essa visão. Mas sentimo-la. Da mesma forma que se sente uma despedida que nunca é definitiva. Quando saímos do escritório e dizemos 'até amanhã' ou 'adeus' sabemos que voltamos. O sol sabe sempre que volta. São os pores-de-sol que são únicos. Têm uma vida própria, apesar de serem sempre um final. Um final de dia.

Final e tristeza costumam andar de mãos dadas, mas um final é passível de ser também uma libertação. Uma promessa de uma magnífica noite, mesmo que sem estrelas como as do céu de Pequim. Uma promessa de um amanhecer esplendoroso, ainda que de Pequim só se veja o 'fog'. Uma promessa de um dia de nuvens a recortarem um tecto turquesa, apesar de Pequim ser feito de nuvens cinzentas.

Um final é sempre uma renovação. E o que vem a seguir não é pior nem melhor. É o que se segue.

É este o abandono em que se vive a nossa sobrevivência diária. Navegação sem rumo ou compasso ou GPS. Pois os astrolábios do destino continuam por inventar.

O que podemos controlar não é o fim do dia, ou o dia, ou o amanhecer, ou a noite. Controlamos a nossa visão de cada um destes momentos, sabendo que não seguramos nenhum deles e escutando o provérbio chinês que informa "que para saber se um pássaro é nosso, há que lhe deixar a gaiola aberta, se voltar..."

Prender um momento é guardar uma memória, uma imagem, uma lembrança, um som ou um sabor. Cabe dentro de nós ou num objecto que nos aviva esse momento. Não cabe na realidade. porque em nós não há realidade, só há o que desejamos que não seja sonho nem passado, mas o que o nosso espírito enforma, de um modo irreal porque não é palpável...

Somos feitos de todos esses momentos que sorrimos e que chorámos, não somos matéria. Somos passado. Como todos os pores-de-sol o são.

Se os queremos segurar, como os postais que guardam esses fins de dia, temos de os consolidar em nós, não no que nos é externo. E 'nós' não é mais do que um lugar dentro do espírito. Surreal antes de irreal, porque é ali que nos guardamos, que fazemos o que é a nossa vida, mas também é ali que moam os nossos limites, os que não controlamos, não aqueles que socialmente nos impõem e que a nossa rebeldia pode mudar a qualquer momento.
Só é lamentável que muita gente não conheça os seus limites, ou, como eu, os queiram modificar. E difícil é depois assumir, perante si primeiro, e perante os outros, o que se passou.

O passado é o conjunto de tudo isto, acumulado e arquivado nos nossos meandros, tornando-se, a pouco e pouco e dia a dia, naquilo que somos, enformando-nos. Sendo seu melhor exemplo a monarquia, onde uma figura, humana, tem esta acumulação simbolizada na sua existência, mas não em sua função pessoal, mas antes de uma nação. O rei é o espírito de uma nação. Nós somos súbditos do nosso espírito, dos seus limites, conformando-nos ou não com isso, vivendo sabendo-nos escravos desses limites e gozando a liberdade de os conhecermos, semelhante ao livre e protegidos que nos sentimos nas fronteiras dos nossos países. é neste espírito, onde guardamos as nossas memórias, que um dia alguém nos poderá reconhecer puramente, de verdade, não numa fotografia.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Limites

Todos temos fronteiras delineadas por nós.
Encontramo-las nos momentos mais inesperados e tomamo-las em consideração porque há mais do que um muro ou uma vedação de arame farpado a parar-nos.
Há uma força interior que é como uma paralisia do espírito. Impede-nos de agir para lá desse limite.
Temos limites que desconhcemos até ao dia em que os queremos cruzar. outros já os entendemos, mas, por vezes, surge-nos a tentação de os ultrapassar por algum motivo incompreensível. E, finalmente, há aqueles limites que é preciso, por ditames de fados superiores, tentar vencer. Normalmente, estes últimos, não são de ordem moral ou física ou psicológica, nem são posições de princípio ou pecados que nos auto-incutimos, são antes os limites espirituais.
Se o espírito pudesse ser imaginado como um copo de formas extraordinárias, poderíamos vê-lo encher-se de líquidos de cores preciosas, como um arco-íris, preenchido em cantos e recantos com tonalidades diferents e correspondentes às nossas mágoas e aos nossos prazeres. Mas tudo na ordem do tolerável.
Agora imaginem esse copo ter no seu diâmetro final um resvalo, ou uma abertura. Aí temos o nosso limite espiritual. Dali transborda tudo. Por isso é tão doloroso ter um limite espiritual a ser tansposto. É que não é só a fronteira que nos é proíbida que é vertida, os outros líquidos são puxados pela corrente do que tentamos encaixar falsamente em nós. E nessa corrente estão, então, os nossos prazares e mágoas, numa amálgama agitada a sair borda fora do copo que é o nosso espírito.
Contudo, temos sinais de aviso antes de entrar neste desalmado sentimento, há que respeitá-los, ainda que a cosnciência, sempre de mão dada com a racionalidade, nos diga que não fazem sentido. São sinais que nos fazem hesitar entre uma maravilha, chorar com um toque, gritar com um sorriso; querer ter e não poder como num poema de Camões ou Pessoa.
Sentem-se num aperto do peito e num nó do estomâgo e na dor de cabeça de lágrimas apertadas no olhar. Sentem-se no abraço que não conseguimos apertar para segurar uma acção, gesto ou pessoa, porque agarrá-los seria cruzar o limite que transbordaria o copo e jorraria a cascata de emoções de um espírito ferido pelo desrespeito demonstrado às suas limitações fadadas no seio da personalidade individual e intocável.