sexta-feira, 28 de março de 2008

Cansada

Há muita gente que se cansa a viajar. Eu canso-me por ficar parada.
Canso-me de fazer a mesma estrada todos os dias, porque viajar é desbravar e não repetir.
Canso-me de repetir os horizontes, porque viajar é a descoberta e não a confirmação.
Canso-me de conhecer os lugares, porque viajar é estar de passagem e não sedentarizar-me.
Se os nómadas andam de um ponto para o outro, é provável que me equivoque não seja nómada. Pois eu ando para a frente e não de um sítio fixo para outro.
Os portugueses têm sangue de descobridor, ou não se teriam deitado ao mar em cascas de noz, navegando sem conforto nem ideia de terra à vista, com o horizonte posto em opuco mais do que uma mera sobrevivência à custa de perigos. Deve ser esse o sangue que me corre, ferozmente, nas veias.
Qualquer sentimento de casa é só isso mesmo. Uma emoção. Não é um desejo. Trata-se mais de uma necessidade. Porque faço da minha casa cada lugar onde estou. Por isso é-me tão importante estar rodeada das minhas coisas, fotografias, esculturas, recordações.
Ou será que tenho sangue de tartaruga? e carrego a minha casa por onde ando, seja o meu escritório ou o avião que me transporta para outro lugar?
Ou serei um pirata que já encontrou o seu tesouro e mesmo assim não consegue enraizar-se numa só ilha?
O que sei responder é o que sinto. Essa é a minha resposta a mim própria. Se páro esmoreço ao ponto da loucura. Porque loucura significa não me reconhecer e perder-me do que sei que sou. é estar sem eira nem beira no meu espírito e largar a alma à banalidade.
A minha resposta às minahs dúvidas é que só me entendo quando tenho um destino de partida e não de chegada.
Todos os destinos são de partida? Não! Os de partida são os que desconhecemos, os que estão por descobrir ou que ainda nos deixaram limbos. Os de chegada são os que reconquistamos a cada visita, porque os conhecemos e só lá vamos marcar presença.
Eu não sirvo para marcar presença, sou escrita fátua que se enche de felicidade com a facildiade de saber que não tenho de voltar tendo para onde voltar.
As minhas constantes são esse destino de partida que preciso ter demarcado no meu horizonte. Mas também são quem habita no meu coração também é constante minha; ainda que nesses casos a distância não encontre geografia suficiente para existir. Porque a cada destino de partida que encontro mais longe quero estar dos meus destinos de chegada.
No meu coração vive só mais uma necessidade, simples, limitada, ilógica. Traduz-se num movimento mágico de encantamento, um ritual que se repete de forma cada vez mais anónima de conhecimento. Os touros. Maravilham-me e controlam-me o desejo de partir, são uma solução para ficar, como é o meu Pompom.
Gosto de me conhecer. Dá-me segurança para viver antes de só sobreviver. Porém, há tantos e tantos momentos de instabilidade, que me mostram que realmente sou quem sou, e que tenho de me confinar às minhas margens para não me perder, absorvida pelas terras de aluvião de alguma planície...
Nesses momentos de instabilidade tento ser o que não sou, extrapolo-me. À força de procurar margens ditadas por outros, acabo por chorar. E fico tão cansada. Derreada. Como quem não sabe o que fazer e eu sei. Eu sei do que gosto e do que preciso para estar bem, porém, há os tais momentos, em que o prazer que tenho se confunde com uma realdiade que não é a miha mas que vivo, acidentalmente. Quando desperto, volto a ser descobridor, tartaruga ou pirata, até posso ser só nómada. Mas nunca aquilo que os outos costumam querer...

1 comentário:

Anónimo disse...

Um mês medeia este belissimo texto e os primeiros textos deste blog, do mesmo modo belissimos.
Que imensa viagem e que imensas descobertas prometiam tais emoções ! Uma infinita 'partida' a dizer bem com o coração nómada. Quanto sol, quanta claridade, quanta esperança, quanta alegria,quanta decisão, quanta serenidade... nos primeiros.
Quanto 'regresso' em vez de 'partida', neste último !
Nos primeiros: um deserto como leito de rio em enxurrada de águas livres, soltas.
Neste último: um deserto com oásis.
Lindo.
(Os lagos aprisionam as águas... ao contrário dos rios).
Besos, hijita!